Cavaleiro Andante

O mar estava tranquilo, e o ar, puro e diáfano. Ao longe, uma ténue visão, quase uma miragem, de terras zululandesas; apenas uma orla escura bordada no manto azul do firmamento.

Greenwood, o “Cavaleiro Andante”, navegava num dos muitos navios que cruzavam o Cabo da Boa Esperança, com vista a trocas comerciais em terras indianas. Subitamente, o céu tornou-se negro de azeviche, e o vento soprando fortemente, levava a pequena embarcação a balouçar instavelmente no mar revolto.

– É o Adamastor! Estamos perdidos!, gritava um marinheiro.

– O fim do mundo chegou!, berrava um  outro, lançando-se à água.

– Homem ao mar, salve-se quem puder!

E o que fazia o nosso herói, enquanto tudo à sua volta parecia um reboliço? Encostado à balaustrada, O Cavaleiro Andante fumava a sua cigarrilha, muito pausadamente, e dizia:

– Não sejam ignorantes, meus caros. Todos nós sabemos que esse monstro não existe. Que sempre se tratou de uma invenção dos ossos marinheiros para impedir que navios estrangeiros se aventurassem nestas águas. Marinheiros experientes como são, pensei que reconhecessem uma mera tempestade… E o mar assim enfurecido é a consequência da junção do oceano Atlântico com o Índico. Até um miúdo da primária o sabe, só os imbecis acreditam no Adamastor.

Mas apesar destas sábias palavras, ditas pelo Homem Que tudo Sabe, nenhum dos marinheiros parava, e acorriam esbaforidos aos botes salva-vidas, prontos para qualquer eventualidade. Somente ele se encontrava descansado, não se importando com a borrasca, ou mesmo com o vento que lhe fustigava as faces e os longos cabelos negros, sentado calmamente no convés a fumar pausadamente.

“Nunca existiram sereias, tritões, monstros e muito menos Adamastores. Tudo não passa de reles superstições.”, pensava. Suspirou profundamente,  fechando os olhos por breves momentos, imaginando a sua chegada em breve à Terra Prometida. Quando os reabriu, um clarão iluminava todo  firmamento e, um rugido atemorizador parecia provir das profundezas do oceano.

– Salve-se quem puder! Para os escaleres! –ordenava o capitão – O barco vai naufragar!

Todos os marinheiros seguiam o capitão e, em pouco tempo, os salva vidas tinham sido lançados à água. Greenwood quis seguir-lhes o exemplo, mas nos botes não haviam já lugares vagos, e os marinheiros apressavam-se a remar com todas as forças só para fugirem dali.

– Então e eu? Não me deixem aqui!…- gritou o nosso cavaleiro ao ser deixado para trás.

– Com que então o Adamastor era uma invenção?  – respondeu-lhe o capitão- Se acredita mesmo nisso, fique aí descansado, e afunde-se com o navio! Vamos, homens, mais forças nos remos!

Greenwood amaldiçoou-os, mas resignou-se à sua sorte. “Tenho que sair daqui,”, pensava, “mas como?”. Subitamente, teve uma ideia luminosa. Acorreu à sua cabina, a qual começava afundar-se, e de lá retirou um perna de presunto, que colocou, juntamente com o seu diário manuscrito, numa maleta pessoal, impermeável, que acabou por lançar à água. Olhou em volta e, vendo o barco afundar-se cada vez mais rapidamente, buscou uma corda, que atou a uma bóia  salva vidas, e a outra extremidade, à sua própria cintura.

Atirou de seguida a bóia ao mar, respirou bem fundo , “Não sei nadar, mas a minha sorte não me irá abandonar agora.”, e com este pensamento, atirou-se muito corajosamente, ao mar.

(to be continued)

10 Responses to “Cavaleiro Andante”

  1. ElectroescadaS Says:

    Logo agora que já estava empolgado a ler a história é que fica a meio (malditos folhetins)…

    Quantos episódios tem esta série?😆

  2. Fokas Greenwood Says:

    Os monstros não existem..só os teus olhos Leanor.
    Foi por ti que embarquei para a China e de lá só voltarei com a Fama e com a Glória (Pires)!
    Muito interessante..temos uma pena de Cinderela finalmente de volta no Tagus!

  3. Elora Says:

    Não deveria ser cavaleiro nadante? Adorei!

  4. Blue(Angel) Says:

    Afro,

    estão de volta os folhetins e as novelas?? Adorei o primeiro episódio. Promete que nos ofereces, pelo menos, um por semana.🙂 E digo mais podemos propor a novela à TVI que a canção já existe e é do RRRRRRRUUUUUUIIIIIIIII.🙂

    Porque sou o cavaleiro andante
    Que mora no teu livro de aventuras
    Podes vir chorar no meu peito
    As mágoas e as desventuras

    Sempre que o vento te ralhe
    E a chuva de maio te molhe
    Sempre que o teu barco encalhe
    E a vida passe e não te olhe

    Porque sou o cavaleiro andante
    Que o teu velho medo inventou
    Podes vir chorar no meu peito
    Pois sabes sempre onde estou

    Sempre que a rádio diga
    Que a América roubou a lua
    Ou que um louco te persiga
    E te chame nomes na rua

    Porque sou o que chega e conta
    Mentiras que te fazem feliz
    E tu vibras com histórias
    De viagens que eu nunca fiz

    Podes vir chorar no meu peito
    Longe de tudo o que é mau
    Que eu vou estar sempre ao teu lado
    No meu cavalo de pau

  5. Ofland Says:

    Cá está.

    Um conto consistente que não descamba à 10ª linha.
    🙂

  6. mermaid Says:

    maravilha! venha mais! e FYI, alguém diga ao Mr. Greenwood que há sereias por aí…

  7. Afro Says:

    Humm…obrigado pela receptividade!!!!

    Na verdade confesso… esta história já está escrita até ao final, por isso poderia ser só dividi-la em episódios. Na verdade até está publicada na net, algures numa página pessoal da minha ventríloqua, da altura em que era uma teenager inconsciente com a mania que gostava de escrever😛 … mas se a coloquei aqui é porque não obstante o primor da história (cof cof lollll) talvez os amigos amantes da pena e do teclado queiram me ajudar a compô-la de outra maneira. Ou seja, que peguem nas minhas letras e lhes forem dado outros seguimentos que não o original… e assim evitavam o tédio que é o resto da história (eh eh eh …)

    Aqui fica o desafio. Alguém alinha?

  8. Blue(Angel) Says:

    Afro,

    sugeres voltar às crónicas que ficaram perdidas nos idos deste blog?🙂

  9. Afro Says:

    Não é bem isso Blue. As crónicas taguenses continuam aqui e lá, no seu blog próprio, (até bem vísivel porque é dos primeiros do Blogroll…e os respectivos autores podem continuá-las quando quiserem, aqui e lá🙂 … assim como novos autores que queiram participar, é só me pedir o convite para escrever no outro blog🙂

    Este excerto é um pouco diferente e não lhe vejo qualquer continuação com essa. Vejo isso como uma nova oportunidade de puxar pela criatividade desses mocitos e mocitas autores para continuar a N mãos uma história que nas minhas já tem pelo menos uns 10 e muitas teias de aranha :)) Acho que seria uma ideia engraçada e teria imenso orgulho que os amigos alinhassem :))

  10. Cavaleiro Andante - Luta pela sobrevivência « Tagus Friends Weblog Says:

    […] algum tempo atraz comecei aqui esta história… na esperança que algum escritor de renome tivesse a coragem de a continuar […]


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