Boca do Lobo

“Que tem escrito nesse papel, Pedro?”

Pedro leva a mão ao bolso da camisa, retira um papel branco, dobrado e entrega-o a Mary.

“Lê tu mesma.”

Mary desdobra o papel e começa a ler. Era uma mensagem de correio electrónico cujo remetente era nada mais nada menos que Afrodite.

“É pá!!!! Mas esta gaja tem cá um descaramento, de início queria-nos tirar a tosse e agora vem com estas falinhas mansas, bahhh. Não me digas que acreditas no que ela escreveu aqui?”

Pedro não respondeu, não queria responder. Afinal a pergunta que Mary lhe fazia já ele a tinha feito a si próprio vezes e vezes sem conta.

“Pedro… eu fiz-te uma pergunta! Responde por favor. Diz-me se acreditas no que está aqui escrito.”

“Porque não, se tudo o que está aí escrito faz sentido.”

“Ainda gostas dela, não é?”

“Que tem isso a ver?”

“Responde…tem tudo a ver, porque só uma pessoa cega pelo amor consegue acreditar nisto que está aqui escrito.”

“Se gosto dela ou não…, não sei. Depois do que se passou connosco também eu acho que existem algumas explicações a dar por ela… e por mim, mas acho que ela está a ser sincera e o que ela diz faz muito sentido.”

“Mas tu acreditas que o DeCosta é realmente um agente infiltrado?”

“Pensa Mary. Quem mais sabia dos nossos passos depois da nossa fuga do desastre de helicóptero? Como sabiam eles que carro alvejar na auto-estrada, quando tudo foi tratado entre o libanês e o DeCosta?”

“Realmente é verdade, mas não quer dizer que tenha sido o DeCosta. Porque não pensas no Fidalgo, por exemplo?”

“Sabes, junto com esse e mail tinha um outro na minha caixa de correio que eu não imprimi.”

“Era do Fidalgo?”

“Precisamente.”

“Que dizia?”

“Dizia que o DeCosta não aparecia na sede desde ontem, mas que fora visto no aeroporto de Sá Carneiro a embarcar num voo para Londres. Dizia também que tinham desaparecido todos os ficheiros referentes a mim e a ti, bem como toda a investigação que eu e o Othelo andávamos a fazer.”

Mary estava estarrecida. Nem queria acreditar em tudo o que ouvia.

“Mas tu acreditas no que o Fidalgo te disse? E não será ele o infiltrado, escrevendo isso para incriminar o DeCosta?”

“Conheço o Fidalgo desde miúdo. Éramos vizinhos e grandes amigos, tenho nele uma confiança total.”

“E o Fidalgo que vai fazer agora?”

“Ele já fez. Fugiu para o Funchal. Alias o mail já foi enviado de lá.”

“Como consegui ele escapar?”

“Utilizou o método UPS.”

“Método UPS? Que método é esse?”

“He he he, é um método que eu e ele desenvolvemos para aplicar em caso de emergência, que consiste em arranjar um caixote de cartão grande o suficiente para caberes lá dentro. Depois compras duas pizzas e uma garrafa de dois litros de refrigerante. Com a ajuda de um amigo de confiança metes-te lá dentro, o amigo fecha a caixa e remete-a como encomenda especial para o Funchal pela UPS. Como vês é simples e eficaz.”

“Ah ah ah ah , só espero que ele não tenha tido vontade de ir á casinha.”

“Sim, pensamos nisso também, por isso além da pizza e do refrigerante levou também um garrafão de água de cinco litros para poder mudar a água ás azeitonas. Quanto ás outras necessidades há que aguentar. Afinal é sempre melhor que ser apanhado pela polícia secreta, não é?”

Pedro parou o carro parou na berma da estrada. Ao longe uma placa azul assinalava um nó da auto-estrada.

“Porque paramos Pedro?”

“Mary, eu vou para Lisboa. Vou encontrar-me com o meu destino, por isso acho que não seria justo obrigar-te a ir comigo, ficas aqui.”

“Mas.. mas… aqui? No meio do nada?”

“Tens ali á frente uma paragem de autocarro, dali vais para onde quiseres.”

“Separamo-nos ao fim de tantas peripécias que passamos. Vamos fugir como fez o Fidalgo, não sejas idiota, vais cair numa armadilha.”

“Eh eh eh eh, já viste bem o tamanho do caixote que seria necessário para nos levar os dois?”

“Estás-me a chamar gorda?”

“Não… não, só te digo que nós os dois dentro de um caixote tinha de haver espaço para a malandrice, eh eh eh…”

“Tonto, vou ter saudades tuas.”

“Eu também minha loira louca.”

Os dois amigos abraçaram-se emocionados. Mary saiu do carro e viu Pedro afastar-se a grande velocidade rumo ao seu destino, rumo a Afrodite.

 (continua)

Posted in SL. 2 Comments »

2 Responses to “Boca do Lobo”

  1. Fokas Says:

    O regresso do Grande Othelo!…que mais me irá acontecer…

  2. pedrofpetrov Says:

    Ora bolas tive que largar o meu palito loiro!
    Vou fazer greve, quero a mary de volta sr narrador.


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