Engatada

Lembro-me do primeiro dia que vi um Neko neste mundo. A minha amiga Tazzy chegou a Laguna, eufórica e apaixonada, a confessar que tinha acabado de ser pedida em casamento. O feliz contemplado, do qual imediatamente recebi foto, era um garboso avatar, possuidor de 2 pares de orelhas e um apêndice longo na parte de trás das costas. Tive logo sérias dúvidas quanto ao futuro da relação, porque me pareceu que alguém que se identifica com uma gato há-de ter um comportamento no mínimo errático.

Como Bartender tenho vindo a aprender a calar os receios e a refrear os ímpetos, pelo que me limitei a dar os parabéns. Mais tarde conheci pessoalmente o bichano, mas tivemos algumas dificuldades de comunicação, porque não lhe entendia os miados e ele escrevia em alemão. Para além disso o seu A.O. incluía esfregar as orelhas e lamber as patas, o que não me impressionou particularmente.

Devo dizer-vos que na RL nem me aproximo de gatos. Na verdade basta estar numa sala anteriormente frequentada por gatos para reagir de forma violenta. Poucos minutos me chegam para começar a espirrar, os olhos a incharem e a pele a ficar vermelha. Se não sair rapidamente sei que serei acometida de tosse e violentos acessos de falta de ar. Portanto as pessoas da minha RL sabem que quando digo que sou alérgica a gatos , refiro-me a fisicamente alérgica. Mas não foi sempre assim e lembro-me de Verões passados a brincar com os gatos da vizinha e de preferir gatos a cães, antes da asma se instalar aos 15 anos.

Serve isto para justificar a minha inicial resistência aos Nekos, mais tarde reforçada pelo abandono da Tazzy praticamente no altar. Pelo que percebi na altura ser Neko implica, para além das orelhas pontiagudas e cauda ondulante, uma subcultura urbana que inclui roupas e acessórios específicos.

Perita em perceber o sentido de humor rebuscado do Universo, calei-me bem caladinha e não proferi a frase “Jamais serei Neko!” Ainda assim o Universo há-de ter detectado a minha relutância e decidiu, mais uma vez, ensinar-me humildade.

Não sei ao certo como isto aconteceu, mas tenho a certeza que as más companhias explicarão uma parte. Isso e um gato a dançar em cima do meu balcão numa noite quente no Paradisus. Há limites para a resistência de uma Bartender solitária, perante as ondulações de uma cauda bem posicionada no fundo de umas esculturais costas. Ou então foi a Lua Cheia que chamou por mim e a vontade súbita de lhe miar de volta conduziu-me ao Kitty Mall mais próximo, de onde saí transformada. Não será para sempre, mas tem sido bom, tendo-me proporcionado momentos de incontroláveis gargalhadas e a aquisição de um novo guarda-roupa.

Não me converti completamente e sei que tenho demasiado amor aos meus vestidos Nicky Ree e aos meus stilettos Maitreya para que a transformação seja definitiva, mas ultimamente as roupas rasgadas e os ténis têm sido a minha indumentária de escolha. O que não invalida que me vista em rigor para uma cerimónia. Desde que AVISADA com antecedência, o que não aconteceu na recente inauguração da exposição do Telemaco Pennell na Galeria LX.

Entrei in-world já tarde, depois de mais uma noite de tortura RL me ter privado da minha hora no Paradisus. Assim que entrei e antes mesmo da saudação, recebo uma oferta de teleporte para Portucalis. Sim, eu sei que devemos pensar antes de aceitar boleias, mas há pessoas em quem confiamos totalmente e aceitei sem sequer perguntar para quê.

Foi assim que me encontrei em plena Galeria LX, em frente ao aclamado fotógrafo (que não conhecia pessoalmente) e a duas das mais elegantes figuras da sociedade Portucalense que, irrepreensivelmente trajadas de longos vestidos de noite, bebericavam champanhe.

Tomei consciência dos rasgões das minhas calças e top, dos óculos escuros empinados no segundo par de orelhas e da lata de chantilly presa à perna e virei-me horrorizada para o culpado da situação e único Neko presente, mesmo a tempo de o ver eclipsar-se num estrondoso Crash, deixando-me sozinha. Era tarde para me teleportar para longe e mudar de roupa, portanto apanhei-me a assumir a minha Nekisse, um bocadinho contrariada, cumprimentei os anfitriões e fui passear a minha ondulante cauda pelas belíssimas fotografias, de cabeça erguida como se fosse habitual andar rasgada em cerimónias finas.

Saí assim que pude, mas nem por um momento me passou pela cabeça largar as orelhas. Fi-lo contrariada, no dia seguinte, para uma festa diferente, mas mantendo bem presentes as memórias de brincadeiras com caudas e orelhas e de rebolar num colchão velho entre jornais. Estou irremediavelmente engatada.

 

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11 Responses to “Engatada”

  1. ElectroescadaS Says:

    Tens queda sim senhora…😈

  2. Ofland Says:

    Tal como o Electro, também acho que tens queda para a coisa.

    Se gosto da tua cauda? Gosto.

    Se gosto das tuas orelhitas? Gosto.

    Se gosto das indumentárias Mad Max? Também, se bem que, para dançar contigo, fõr necessário aguentar 3 ou 4 golpes profundos provocados pela faca de mato que trazes pendurada no tornozelo….

    Se gosto dos diferentes tipos de recipientes que trazes nos anexos e dos cintos e das correias e dos rasgões? Têm a sua graça.

    Se gosto dos miaus, renhaunhaus, rinhaus e afins? Têm o seu quê de sexy.

    Mas que um Stilleto Maitreya bem cravado num qualquer ponto estratégico da pele de qualquer homem é muito mais arrebatador que todas aquelas gatisses mencionadas acima…lá isso é! 🙂

  3. Elora Says:

    Ponto estratégico, assim de rebente, ocorre-me a córnea. Ou a mucosa interan do nariz. Era isso a que te referias?

  4. Ofland Says:

    Assim de “rebente”, nada do que seja “interan” é ponto estratégico.🙂

    Podia explicar-te melhor onde são os pontos estratégicos, mas o desenhador de serviço hoje já trabalhou bastante e saiu mais cedo para ir passar o fim-de-semana fora.

    eh! eh! eh! (sorriso de soslaio, meio provocador, meio private joke, meio sarcástico, portanto, exactamente sorriso e meio)

  5. Elora Says:

    Vi um acessório Neko fantástico para dançar contigo Of. Uma moto-serra de pÔr às costas. Podemos dançar aquele slow romantico em que fico de costas para ti. Tenho a certeza que conseguiremos cobrir todos os pontos estratégicos.

  6. Fokas Says:

    Elora Maria, só faltava agora engatares-te! Queres que “Deus Ira” caia em cima de nós e de repente, depois de mais um crash, relogemos transformados em bonecos de sal??? Queres mesmo??? Achas que essas tendências zoolofilas são aceitáveis numa ilha de respeito como Portucalis, que se preza pela decência e o bom costume? Achas que a Milady alguma vez aceitará um comportamento desviante nas suas terras? Acho que te estás a passar, que nos odeias profundamente para te portares assim tão mal.Vou rezzar por ti duas avés em silêncio no meu cantinho!

  7. ElectroescadaS Says:

    Acho que a vossa banda favorita deve ser os “Suicidal Tendencies”… :p

  8. Blue(Angel) Says:

    E eu que num tou nada para aí virada, mana!!! Mas as lojas têm coisas giras. Principalmente botas!!!🙂

  9. Summer Wardhani Says:

    Ser um híbrido é um estado assim algures entre um humano e um animal. Assumir essas duas vertentes ke existem dentro de nós e cagar para uma série de convenções muito mais apropriadas ao mero estado humano.

    Ser um híbrido significa ke podes moder, arranhar e portar-te tão mal kuanto keiras e bem te apeteça. Significa ke podes juntar-te a um dos inúmeros clãs e trepar de posição em posição se for isso ke keiras. Ou permaneceres a vida toda um stray cat, um “gato vadio” solitário, a explorar sítios fabulosos por esse SL fora. No profile da minha miga Sand Posthorn talvez encontres alguns landmarks a ke aches piada.

    Ser um híbrido é sobretudo um estado de espírito. Claro que pode ser também uma brincadeira provisória e temporária, motivo apenas para umas boas gargalhadas e palhaçadas. Para mim, ke há algum tempo exploro esse universo, é na verdade um espaço único de liberdade.

    E não, ninguém leva a mal as meias rotas e as botas estranhas e tudo isso. Faz parte – é uma kestão de atitude. Divirtam-se e aproveitem !

  10. Winter Says:

    A Milady num é ditadora… são aceiters todas as espécies em Portucalis como todos bem sabem. Os Nekos são uma das quais eu tenho um carinho especial porque, ao contrário da El, adoro felinos (não fosse eu Leão😉 ).

    Toda e qualquer espécie, raça ou comunidade é benvinda em terras portucalenses, de vampiros a gores, de furries a dragões. A única exigência é nada de armas e violência.

    Estão algumas coisas na manga que irão mostrar na real (ou será no virtual?) o que afirmo.

    E claro que podeis continuar a rezar Sir Greenwood, mas portar mal é tãoooooooo bom😉

  11. Ofland Says:

    Querida Elora Félidas Lungu,

    A Summer, com os seus irrepreensíveis textos (que até contém “cagar” sem que isso belisque a idoneidade dos ditos cujos, leia-se textos), acaba de dar um forte empurrão aos “Prós”.

    Sendo assim, não resisto a atirar-te mais um novelo de lã, para equilibrar a balança Pro-Con:

    Aviso-te, Elora Félidas Lungu, que uma das desvantagens de ser Gata é ter de se incluir mais Sandboxes na construção de um lar, o que pode tornar o orçamento deveras incomportável!

    O Amigo do Tornozelo Esfaqueado
    (The Knifed Ankle Friend)


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