Poderosa Afrodite

 Afrodite olhou para o escritório com um sentimento antecipado de nostalgia e saudade, afinal havia passado naquele espaço os últimos 3 anos da sua vida.

Em cima da mesa um “post it” fê-la regressar à realidade,

Não esquecer tomada de posse

Nova ministra

10:30.

Sentiu o sangue a fervilhar-lhe nas veias, não só tinha de rever aquela mulher como ainda tinha de lhe sorrir e apertar a mão cordialmente. “Repugnante criatura…” murmurou por entre os dentes. Na memória estava ainda aquela noite em que vira Lourenço, o seu Lourenço, envolver-se nos braços daquela mulher com uma entrega e luxúria que ela pensava ser a única usufrutuária. Afinal enganara-se. Mas agora que Lourenço desaparecera via nela a única destinatária de toda a sua revolta.

Senta-se junto ao computador, abre a sua caixa de correio e escreve uma mensagem enviando-a de seguida para o destinatário.

Pegou na caixa de cartão que a secretária se encarregara de lhe fornecer, olhou para o relógio, eram ainda nove horas da manhã, tinha tempo suficiente para arrumar as suas coisas e encaminhar-se para a cerimónia de posse.

Palácio de Belém 10:33.

Afrodite entra na sala. Sente os olhares de todos caírem-lhe em cima.

“Peço desculpa pelo atraso…” Disse em voz baixa.

“Vamos lá começar com a cerimónia. Tenho a minha agenda sobrecarregada hoje.” Disse o primeiro ministro num tom ríspido, olhando para Afrodite de soslaio.

A cerimónia lá começou com um pequeno discurso do Presidente da república sobre a necessidade de manter a segurança das populações como prioridade de um estado de direito. O discurso terminado passaram ás assinaturas do livro de actas. Elora é convocada a assinar. No momento em que passa defronte de Afrodite lança-lhe um olhar de desprezo dizendo entre dentes, “Falhada.”.

Afrodite num gesto irreflectido deixa extravasar toda a raiva que sentia por Elora e prega-lhe um valente pontapé na parte interior do joelho que faz com que Elora se estatele, redonda no chão.

Um grande bruahhhh ecoa pela sala, Elora, humilhada pela situação, levanta-se, ajeita o vestido e dirige-se à mesa onde um secretário embasbacado com o que acabara de presenciar, lhe estende a mão com uma caneta. Elora pega na caneta e proferindo as palavras da praxe assina o livro. Concluído o acto, levanta a cabeça e encara Afrodite com um olhar esgazeado, como uma leoa a quem lhe roubaram uma cria e o autor desse roubo está em frente a ela.

Entrega a caneta ao secretário, cumprimenta o presidente da república, o primeiro ministro, ficando depois junto a eles aguardando os cumprimentos da praxe.

Afrodite não entra na fila para os cumprimentos, vira costas e dirige-se para a porta de saída.

Antes de chegar à porta uma voz por trás chama-a. “Afrodite.” Era Elora. Ela vira-se de imediato esperando alguma acção de represália por parte da oponente, mas Elora não se aproxima dela. Com a voz rouca pela raiva contida diz-lhe,” Isto não vai ficar assim.”

“Ah…, não querida. Vai inchar, mas com gelo passa…”

Afrodite virou costas com um sorriso estampado nos lábios. Tinha tido o seu momento de glória. Parte da raiva que sentia havia-se dissipado, podia agora seguir com a sua vida e encarar o futuro com novo alento.

Entretanto, algures na auto-estrada do Norte o trio fugitivo segue a alta velocidade rumo ao Porto.

“Ainda falta muito para a Bairrada???” Perguntou Pedro pela enésima vez.

“Oh pá, tu és mais chato que os miúdos de escola.” Respondeu Othelo impaciente.

“Olha acabamos de passar por Coimbra, a área de serviço da Mealhada é já ali, aguenta mais um pouco e para de me perguntar isso.”

“Área de serviço!!!! Mas eu não quero comer na área de serviço. A comida lá não presta, eu quero ir a uma casa de leitões a sério…”

“Ok, ok… saímos na saída para a Mealhada e vamos aos leitões. Tu com fome não há quem te ature!”

CRASHHHHHHH

O impacto estilhaça o vidro da frente por completo. O carro vira bruscamente para a esquerda batendo violentamente no separador central da auto-estrada entrando em capotamentos sucessivos até se imobilizar na berma algumas dezenas de metros mais à frente.

O acidente faz parar outras viaturas que seguiam na mesma faixa de rodagem com os respectivos ocupantes a dirigirem-se para o carro acidentado na tentativa de auxiliar as vitimas.

Pedro sente que alguém o está a puxar pelos braços fazendo o corpo deslizar pelo tejadilho do carro capotado. Abre os olhos e vê Mary encostada ao separador lateral com sangue a escorrer pela face, mas a falar com os transeuntes que entretanto se haviam juntado e lhe faziam perguntas sobre as causas de tão aparatoso acidente.

Voltando a sentir as forças regressarem-lhe ao corpo tenta em vão levantar-se mas está demasiado atordoado para se manter em pé e volta a sentar-se no chão.

“Othelo, onde está o Othelo???” Pergunta com voz tremula.

“Lamento amigo mas o condutor não se safou. Era seu amigo, parente?”

A noticia transmitida por um homem com farda de bombeiro aterrou como uma bomba.

“O quê? O que é que você me está a dizer homem? Eu quero vê-lo, ajude-me a pôr em pé. Você não faz ideia do que está a dizer, ele não pode ter morrido. Não pode, ouviu…”

Pedro agarrou-se à farda do bombeiro aos berros. Parecia que tinha a alma fora do corpo. Ajudado pelo bombeiro aproximou-se do lugar do condutor onde jazia Othelo inanimado. O corpo apresentava diversos ferimentos na cara, provocados pelo acidente, mas foi um particular ferimento no peito que fez Pedro parar horrorizado. Um ferimento de bala. Era indistintivamente um ferimento de bala. Alguém havia alvejado Othelo.

Freneticamente começa a olhar em todas as direcções tentando vislumbrar o atirador. Atrás deles um viaduto cruza a auto-estrada. Certamente teria sido daquele local que teriam alvejado Othelo.

O olhar volta-se para o amigo, as lágrimas a caírem-lhe pelo rosto.

“O meu amigo, meu irmão, como puderam fazer isto, logo a ti…”

“Mary… Mary!!!”.

“Calma… Ela está além, mas está bem. Apenas algumas escoriações na face.”

Pedro acerca-se de Mary abraçando-a chorando e soluçando como uma criança.

“Mataram o nosso Othelo, Mary… Mataram-no…”

O abraço é interrompido pelo ecoar do som de dois helicópteros a sobrevoar o local iniciando manobras de aterragem na faixa de rodagem.

“Mas que raio de coisa, quem são estes gajos. Do INEM é que não são, ninguém os chamou.” Comentou o bombeiro junto a Pedro.

Pedro levanta a cabeça e reconhece os aparelhos. É Francisco. Foi ele quem esteve por detrás disto tudo. Haviam sido descobertos.

“Mary levanta-te temos de nos pôr em marcha, fomos descobertos.”

“Para onde queres tu ir? Não temos escapatória. O Othelo está morto, estamos no meio do nada, feridos, atordoados, para onde queres ir tu?”

“Por aqui…”

Pedro agarra Mary pelo braço e arrasta-a por entre os arbustos que ladeiam a auto-estrada, saltam a vedação e esgueiram-se por entre o arvoredo.

Atrás deles bombeiros e mirones tentam impedir a fuga pensando na integridade física dos acidentados. Mas o movimento de Pedro é tão rápido que logo os perdem de vista.

Entretanto Francisco abeira-se da viatura acidentada descobrindo Othelo inanimado.

“One down two more to go…” Murmurou esboçando um leve sorriso.

“Quem são vocês? Que fazem aqui?” Pergunta o bombeiro dirigindo-se a Francisco.

“Schiuuuuuu, calminha, calminha…” Interpelou Francisco exibindo o crachá da policia secreta.

“Onde estão os outros passarinhos?”

“Fugiram assim que viram os helicópteros. Foram por ali, mata adentro.”

Francisco virou-se de imediato e com um gesto de mãos deu ordem aos pilotos para porem os aparelhos de novo em funcionamento.

Mata fora, Pedro e Mary corriam com as forças que ainda lhes restavam. Encontraram um pequeno aglomerado de casas. Escondidos atrás dos arbustos, ai permaneceram por instantes observando o movimento na rua e casas procurando alguma coisa suspeita.

(continua)

Posted in SL. 5 Comments »

5 Responses to “Poderosa Afrodite”

  1. ElectroescadaS Says:

    Onde é que eu posso começar a ler o folhetim desde o início mesmo?

  2. Elora Says:

    Estatelada no chão? Repugnante criatura? E depois matas o Othelo? O Othelo? E agora quem conta a história? OTHELOOOOOOO!!!!!!!

  3. Afro Says:

    Electro, procura aí no blogroll as “Crónicas do Othelo” que está lá tido seguidinho.

    El, não fui eu que matei o Othelo. Mas isto de ser Deusa tem as suas vantagens…😛

  4. Ofland Says:

    Eh, eh, eh!

    Que ritmo frenético! Argumento para Hollywood já!

    Tenho de ser solidário com uma vítima. Escolho a Elora. Ofereço-me para ir pôr-lhe gelo no joelhito, tadinha.

    Tens o meu apoio Elora!

  5. pedroferreira Says:

    epá logo agora que estava quase a chegar á mealhada para comer e pimba acontece isto ora bolas ainda por cima acertam no contador da novela, cá para mim anda por ai alguem a querer terminar logo logo a novela, hummmm…se apanho o desgraçado esfarrapo-o todo.


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