Estrada para a Liberdade

 “Gassspppp, puhhh…, puhhhh…. Porra com esta já são três os mosquitos que engulo.”

“Fecha a boca, andas para aí com a tacha arreganhada… Gasssspppp, puhhhhh, puhhhh…”

“Ahahahahahahahaha… Gasssppppp, puhhhh… puhhhh.”

“Ahahahahahahah… ” Riram ambos com a situação. De cada vez que abriam a boca entrava um insecto.

A viagem desde Abrantes estava a ser bastante desconfortável, embora enriquecedora em proteínas. O smart, um carro pequeno de dois lugares não deixava outra alternativa aos dois amigos senão viajar quase em pé com a cabeça de fora do tejadilho de lona, que havia sido recolhido.

A viagem até Constância era relativamente curta, em condições ideias, mas o facto de os dois amigos irem quase de pé na traseira do automóvel obrigava o condutor a moderar a velocidade tornando a viagem mais longa do que Pedro e Othelo desejariam.

Othelo repara que à medida que se cruzam com outras viaturas estas lhes fazem sinais de luzes. A principio não havia ligado muita importância, seriam engraçadinhos armados em parvos, pensou ele. Mas agora já haviam passado por eles quatro viaturas e as quatro tinham dado sinais de luzes.

“Encosta o carro… ” Gritou para o motorista.

“Encosta o carro agora.” Gritou mais alto pensando não ter sido ouvido pela primeira vez.

“Já vai, já vai…” Disse o motorista incomodado com a maneira como a ordem havia sido dada.

“Que se passa Othelo?” Perguntou Pedro.

“Temos sarilhos mais adiante.”

“Porque dizes isso?”

“Por acaso não reparas-te nos carros com que nos temos cruzado na estrada? Quase todos eles nos têm dado sinais de luzes.”

“Hummm… Achas que é uma barreira policial na estrada? Pode ser um acidente.”

“Até pode ser, mas eu não quero arriscar.”

“Pedro acho que o Othelo tem razão. Vamos voltar para trás.” Disse Mary.

“Não, para trás não. Vira aqui para Martinchel.”

“Mas isto vai dar a Castelo de Bode!!!” Exclamou o motorista admirado com a mudança de planos. Afinal iam direitinhos para a boca do lobo.

“Acho que é o único sitio que eles não esperam que a gente vá.” Comentou Othelo.

Uns quilómetros mais à frente de facto existia uma barreira policial montada pelos operacionais da secreta disfarçados de agentes da brigada de trânsito.

Francisco acabara de chegar à barreira e dirigiu-se ao oficial que estava responsável por aquele destacamento.

“Alguma novidade?”

“Não, meu comandante. Nenhuma novidade.” Respondeu o operacional precedido de uma energética continência.

“Manda uma viatura até Abrantes. Quero ver se eles pararam em algum lado.”

“Já mandei meu comandante. Acabaram de regressar e nem sinal deles.”

“Além desta estrada que outras estradas têm barreiras?” Perguntou Francisco estendendo o mapa da região sobre o capô da viatura.

“Ainda da estrada nacional em que temos barreiras antes e depois de Abrantes, ainda não conseguimos colocar mais ninguém.”

“Porra homem, como podemos controlar isto se temos uma infinidade de estradas entre este ponto e Abrantes. Que diabo de operação estamos aqui a levar a cabo?”

“Meu comandante, pedi reforços a Lisboa, mas ainda não me enviaram nada. Com os homens que disponho não posso cobrir tudo.”

“Malditos cortes orçamentais. Estes gajos do governo pensam que podemos fazer omeletes sem ovos. Chama o apoio aéreo, rápido.” Disse Francisco irritado.

“O apoio aéreo estará aqui dentro de 15 minutos, ainda não terminaram a operação de reabastecimento.”

“Porra, porra, deixa lá eu chego a Tancos mais depressa do que eles chegariam aqui.”

Francisco entra no carro e dispara desenfreado em direcção à base de Tancos.

Lisboa, Palácio de S. Bento, 10:15.

“Bom dia Sr. Primeiro Ministro.”

“Não me venhas com essas falinhas mansas de Sr. Primeiro Ministro, Afrodite. Fizes-te merda, merda da grossa.”

“Merda, eu fiz merda? Devias ter vergonha de me atirar com isso à cara. Perdi quase todos os operacionais num só dia e ainda tens o descaramento de me dizer que fiz merda.”

“É verdade. Perdes-te quase todos os operacionais num só dia para uma organizaçãozeca de plantadores de bananas armados em espiões, isso não é fazer merda. Não, acho que o nome fica muito aquém daquilo que se passou.”

“A tua hipocrisia é digna do cargo que ocupas. Não fossem os cortes orçamentais que  o teu ministro das finanças tem vindo a fazer e eu teria a equipa que necessitava. Bem treinada, bem equipada. Bando de plantadores de bananas!!! Ahahahahaha, estão mais bem treinados que todos os operacionais que tinha sobre a minha alçada.”

“Não quero ouvir mais nada. Coloca o teu lugar à disposição. Direi aos jornalistas que saíste por problemas pessoais. A tua substituta tomará posse amanhã, está tudo tratado com o Presidente da República.”

“Substituta??? Quem é ela? Alguém que eu conheço? Cá para mim deve ser estrangeira, porque não estou a ver ninguém de cá com o juízo todo a aceitar tamanho cargo.”

“Olha, acertas-te… É de facto estrangeira, mas fluente no português. A próxima ministra do interior será a Elora.”

“A Elora!!!!” Afrodite nem queria acreditar, a mulher que lhe havia roubado o homem que amava, roubava-lhe agora o lugar no governo.

“É a Elora. Agora vai, tenho mais o que fazer que ficar a conversar com fracassadas.”

“Fracassada… Olha sabes que mais… Vai-te foder.” Virou costas e bateu a porta com força atrás de si.

A cabeça de Afrodite parecia que ia explodir. O nome Elora não parava de martelar na sua mente.

Saiu do palácio, entrou no carro e disse ao choufer para a levar ao ministério.

Entretanto Pedro, Othelo, Mary e companhia, haviam passado por Castelo de Bode sem problemas. Encontravam-se agora às portas de Tomar.

“Malta, eu não sei se vocês sentem o mesmo, mas eu não como nada de jeito há dias. Dá para pararmos por aqui para repor as energias?”

“Olha, ainda bem que falas nisso.” Disse Mary. “Estou cá com uma larica, era capaz de comer um boi.”

“Pois eu preferia que parássemos numa área de serviço na auto-estrada.” Disse Othelo.

“Ahahahah.” Riram Pedro e Mary em simultâneo. “Estás parvo? Achas que vamos longe desta maneira? Neste carro? Só podes estar a brincar.”

“Realmente, vendo bem as coisas.. Passa-me aí o telemóvel.”

“Para quem vais ligar?” Perguntou Pedro, segurando o telemóvel impedindo que Othelo lhe pusesse a mão.

“Dá cá isso. Vou ligar ao DeCosta, que é que achas? Achas que vou ligar à ministra, é?”

“Precisamos de uma viatura.” Disse Othelo num tom ríspido e directo.

“Então que se passa? Não gostaram da limousine que vos arranjei?”

“Engraçadinho. Olha, ainda estou a catar escaravelhos e abelhas do meu cabelo, grande palerma.”

“Ai sim? Para a próxima vocês dão-me ouvidos. Bom, dirige-te ao stand M2 aí em Tomar, o dono é um tal de Paravane, é cá dos nossos ele tem aí uma máquina mesmo à vossa medida.”

O stand M2 ficava na avenida central de Tomar. Era um stand amplo com bons carros à venda, maioritariamente Mercedes, BMW e um ou outro carro desportivo de grande cilindrada.

Paravane veio recebe-los à porta com um sorriso de orelha a orelha. O sotaque libanês revelou de imediato a origem daquele homem bonacheirão.

“Bom dia, meus amigos.” Saudou Paravane os recém chegados.

“Beirute?” Perguntou Othelo.

“Ohhhh, não meu amigo. Tiro é a minha cidade natal, vejo que o meu sotaque não lhe passou desapercebido. Já esteve no Líbano Sr…?

“Othelo, chamo-me Othelo. Estive sim, em Beirute nos idos anos de 1970.”

“Bonita época para o Libano. Éramos conhecidos como a Suíça do médio oriente.” Comentou Paravane com um  olhar melancólico.

Mary e Pedro olhavam para ambos, limitavam-se a acompanhar a conversa.

“Ahh, estes são os meus colegas, Mary  e Pedro.”

“Ah, sim, sim… senhor Costa já me pôs ao corrente de tudo.”

“Podemos levar uma destas viaturas?” Perguntou Pedro já impaciente todo aquele deferimento entre Othelo e Paravane.

“Estas não… Mas tenho algo na garagem que serve bem para aquilo que procuram. Venham, venham.” Paravane encaminhou os três para uma porta por detrás dele.

Entraram numa garagem pejada de viaturas. A maior parte delas aparentava estar ali à muito tempo, tamanha era a camada de pó que tinham em cima. Olharam em volta e ao fundo, junto ao portão, observaram uma viatura que parecia ser a única que não tinha os sinais do tempo sobre ela.

Aproximaram-se. Paravane, que ia à frente deles, virou-se abrindo os braços, como que a convidar os amigos para junto dele.

“Venham cá, aqui está ele. Uma beleza, o meu melhor carro. Um BMW 735i coupé, que tal, hahhh?”

Othelo, Pedro e Mary ficaram parados a contemplar a máquina. Era realmente um belo carro.

“Caro amigo, não sabemos como lhe agradecer, mas temos de nos fazer à estrada de imediato.”

“Não precisam de agradecer. Faço isto por acreditar na causa.”

Os três amigos entraram no carro. Despediram-se de Paravane e rumaram à auto-estrada do Norte.

“Espera lá… Então e a minha bucha? Não paramos para comer?” Perguntou Pedro desesperado de fome.

“Desculpa, é como te disse, prefiro parar numa área de serviço.”

A seta indicava o desvio para o Porto, há já muito tempo que todos eles ansiavam por regressar à sua base de operações. Sentiam-se satisfeitos por o dever cumprido, mas pedro tinha uma sensação estranha de perda, afinal, em 24 horas havia perdido as duas mulheres da vida dele.

(continua)

Posted in SL. 10 Comments »

10 Responses to “Estrada para a Liberdade”

  1. ElectroescadaS Says:

    Muito me ri eu com este capítulo…:)

    Em vez do BMW eu tinha escolhido um Ford Mustang GT500, isso sim é uma máquina…😈

  2. Elora Says:

    De bartender a Ministra? Ganda salto! Mas…espera lá…agora sou dos maus?
    Nem sabem o que vos espera! Pedro e Othelo, estão perdidos. AHAHAHAHAHAHAH!!!!

  3. pedroferreira Says:

    Epá ou me engano muito ou parece que vou morrer de fome, othelo para na ârea de serviço da bairrada sff para comprar uma sande de leitão🙂

  4. pedroferreira Says:

    ainda vou morrer de fome, othelo para na ârea de serviço da bairrada para comprar uma sande de leitão🙂

  5. Fokas Says:

    Grande Othelo,
    Excelente ideia essa de nomeares a Lurdinhas aka Elora de bartender a Ministra!!
    Eu tenho mais crimes para investigar e o Algarve está cheio de amêndoeiras em flor!

  6. M2 Says:

    Obrigado Othelo por teres realizado em ficção um dos meus sonhos mais antigos RL: ser dono de um stand de automóveis!🙂

  7. pedroferreira Says:

    fokas a elora fanecas é a verdadeira mulher dos 7 oficios😉

  8. pedroferreira Says:

    M2 no sl a gente sonha e torna-se realidade, o teu sonho está realizado na tela agora não te esqueças daquele porchezito que te falei…psiu…(é melhor não comentar por aqui esse tipo de negócios)😉

  9. ElectroescadaS Says:

    Pra mim pode ser um Corvette (ou um Mitsubishi Evolution X)

  10. pedroferreira Says:

    Electro um corvette é sem duvida uma boa escolha venham 2! LOL


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