Olhares no alhures 4

– Viva Casimiro, quanto  tempo pá… andas sempre desencontrado… à espera do comboio na paragem do autocarro!

Mas não tens perdido nada… As conversas da macieira morreram …Estou aqui há dias a ler “As Benevolentes” e na página 149… os alemães ainda não conseguiram matar todos os Judeus de Kiev!.  

– Sim…. Fokas estou a ver a onda…continuas na boa! Como sempre…né? 

O Casimiro vinha  com um ar pesado… – A vida finalmente já faz sentido para ti?  Olha, ainda bem, amigo, mas hoje chove muito cá dentro. Espero que não tenhas questões inúteis para conversar como é  teu hábito… estou mais a precisar de um amigo que esteja calado! Pois…a vida tal como ela é! Tu aí  sentado debaixo da macieira  a ler o teu livrinho quando afinal o que importa… não é a literatura… E há tanta maneira de se encher uma estante…

Às vezes apetece-me mandar o Casimiro aquela parte. Paternalista dos sete costados acha que a revolução é uma coisa para gente séria! O Casimiro quando quer é um gajo grosseiro e muito desagradável. Um prussiano de merda sempre em bicos dos pés… lá porque  diz que andou na Escola Alemã!  Um cabrãozeco de um intelectualóide  que adora  Freud e os “Rammstein” e quando bebe de mais…. adora gritar “Ich bin wie ich bin!” como se alguém entendesse o que quer dizer…  

– Escusas de estar a agredir-me pá, não estás farto de saber que sou teu amigo??? Sou todo ouvidos…diz lá o que queres! Queres que eu te apague a luz?

– Sim…muda aí a cena do sol….às vezes não me seduz Fokas….às vezes não me faz falta…A Blimunda está doente e  eu já na penitência…mea culpa…nunca liguei muito a prolopópos…e acontece que não sei mais o que fazer…

– A Blimunda está doente? … e depois… não estamos todos, Casimiro? (E  eu que evito sonhar com uma mulher doente. Odeio a dor… odeio o Casimiro que faz parte de mim).

– Pois é Fokas…tu continuavas a viver um romance de um dia na estrada…! Mas o Sérgio também está mais velho… Só tu é que nunca mais cresces…fica na tua idade de sonho, pá! Eu tenho que apanhar o barco para o Barreiro! Volto outro dia… fica bem e acaba a porra do livro depressa…A vida lá fora continua…um dia destes vais ter que acordar!

Dei um abraço ao Casimiro e desejei as melhoras rápidas da Blimunda! Entre nós e as palavras …o nosso dever de falar . Sim… o que mais podemos fazer? Larguei o Casimiro com os olhos húmidos. Os dias vão estar mais tristes… esta semana…pelo menos na minha aldeia.

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One Response to “Olhares no alhures 4”

  1. Afro Says:

    Fokas, ouvi dizer que a macieira continua a dar frutos. Se bem que não goste muito de maçãs, recordo com carinho o dia em que andei a xafurdar lá no lixo.

    Um beijinho de Deusa ao Casimiro também e as melhoras da Blimunda.

    ps. Casimiro, ainda estou à espera de saber porque é que os gatos brincam.


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