K.

Depois da surpresa inicial, o sumo de laranja de June e o segundo Jameson de K. não foram suficientes para os tirar da apatia em que caíram após o roubo inesperado do microfilme. Passados poucos minutos, June guardou as duas metades da boquilha na bolsa e dando um beijo apressado a K. retirou-se sem mais palavras.
Apesar dos olhares irritados do barman, K. permaneceu sentado ao balcão. “Porra!, mas que aconteceu?, em que outra história me meti?”.

K., dono de uma fortuna confortável iniciada pelo seu avô paterno, contrabandista na raia de Campo Maior levando postas de bacalhau demolhado e café para Espanha e trazendo rolhas de cortiça, não teve contudo um percurso de vida fácil.
De ascendência judaica, converteu-se ao catolicismo após ter sido violado aos 12 anos por uma empregada de casa de seus pais. Um ano depois foi abordado por um amigo banqueiro da família para entrar na Obra. K., julgando que o estavam a convidar para trolha da construção civil, recusou.

Todavia, o seu fervor católico acentuou-se aos 18 anos quando durante a missa dominical o padre no seu sermão disse que “sexo só para reprodução”.
Nessa altura K. percebeu o seu destino e o seu papel no catolicismo: contratou a empregada que o violara e fundou uma empresa caseira de filmes pornográficos. Ao longo de 3 anos levou muito a sério a reprodução do sexo, realizando dezenas de filmes (com um bom lucro) até que a antiga empregada morreu aos 65 anos de cansaço e sida.
Abandonou então Portugal e alistou-se como mercenário, primeiro em Angola e depois em Toxia, onde ao fim de 2 anos perdeu um olho. Solidário com Sartre por este ser vesgo, tornou-se existencialista e refugiou-se num retiro budista na Serra do Caldeirão. E foi aqui que conheceu June, ela também no retiro, cansada de ser gozada por amigos e turistas ingleses por só se vestir com roupas da Maria Gherardi.

K. permaneceu no retiro budista durante um ano, até que um dia, numa saída a Silves para comprar mantimentos, encontrou Ibrahim que recolhia assinaturas para uma petição visando o derrube do castelo de Silves. Nesse dia K. abandonou o existencialismo e o retiro e tornou-se anarco-comunista passando a percorrer o país recolhendo assinaturas para petições sobre os mais variados assuntos.

Em 2005 os seus pais morreram e uma semana depois K. foi preso em frente ao Palácio de Belém quando se manifestava gritando pelo derrube do Palácio de S.Bento. Neste mesmo dia, K. viu que a sua vida tinha de tomar outro rumo: logo que saiu da prisão vendeu as propriedades da família, tornou-se cripto-socialista e até hoje vive dos rendimentos e como hobby fazendo um ou outro trabalho de detective amador.

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3 Responses to “K.”

  1. Elora Says:

    Tp, retiro o que disse. Quero casar com o K.!!!

  2. tpglourenco Says:

    M2…
    BEM…
    TU TENS UMA IMAGINAÇÃO MAIS GALOPANTE DO QUE A MINHA
    ADOREI…

  3. June Jurack Says:

    M2, que eu saiba a June só tem dois pares de calças e uma camisola da Maria Gherardi, mas promete que vai comprar mais. Se a fama existe, porque não o proveito? E as roupas dela são de boa qualidade. O K. é que é, sem sombra de dúvida, o par ideal para a June; mesmo sem um olho, tem mais visão que uma águia a 1 km de altitude.
    Está o máximo.


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