Uma Outra Boquilha?

Os despojos da passagem do ano conduziram K. até ao bar do Hotel Paris. Àquela hora o bar já estava vazio de pessoas, apenas copos com fantasmas de bebidas povoavam as mesas. O que restava duma noite que K. intuía ter sido animada.
A caminho do balcão, numa mesa, entre dois flutes de champagne e um prato quase cheio de tostas cobertas de foie gras, K. viu uma boquilha. Não resistindo, pegou nela e levou-a consigo para o balcão.
A boquilha era lindíssima, de madrepérola e prata, muito longa, fazendo lembrar as que as mulheres usavam nos anos 20, combinando com os colares de pérolas falsas e os vestidos brilhantes e direitos.
O final da noite, aliado ao tempo frio e chuvoso, convidava ao conforto do Jameson de 15 anos. K. não tinha pressa e entre dois goles do uísque quente e macio, rolava entre os dedos, lentamente, a boquilha. Estava no seu terceiro gole quando o som inesperado do telemóvel (que se esquecera de desligar) quase o fez cair do banco. Era June perguntando se podia ir ter com ele.

A claridade difusa e molhada da manhã já inundava o bar quando June chegou. Passados os cumprimentos habituais e as perguntas sobre a noite, June reparou na boquilha que K. continuava a rolar entre os dedos. “Essa boquilha… eu conheço-a ou então é muito parecida com a que uma amiga minha costuma usar”. K. parou de rolar a boquilha e passou-a a June. “Sem dúvida que é igual à da Philbin”. “Philbin?”, perguntou K., “não conheço”. Observando com toda a atenção o objecto que tinha na mão, June não respondeu de imediato. “Parece mesmo a boquilha da Philbin”. “Mas quem raio é a Philbin?”, voltou a perguntar K..”É uma amiga minha que mora em Portucalis. A sua boquilha tem uma particularidade quase única: o filtro, que é de uma marca raríssima. Vou abri-la”.
Com todo o cuidado, segurando a boquilha com as duas mãos, June começou a desenroscar o bocal de modo a chegar ao filtro. Quando acabou, ao separar as duas peças da boquilha, caiu para cima do balcão um pequeno rolo. “Que é isto”, perguntou June. K. pegou no pequeno rolo e depois de o observar atentamente disse “Isto é um microfilme amiga. Essa tal de Philbin é espia ou quê?”.

Com os contornos sugados pela claridade vinda da rua, nem K. nem June se aperceberam do vulto que entrou no bar do Hotel Paris e rapidamente chegou ao balcão apoderando-se do microfilme, antes escondido no interior da boquilha.

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9 Responses to “Uma Outra Boquilha?”

  1. M2life Paravane Says:

    Uma pequena nota:
    A história inicial era para ser escrita a 4 mãos, mas como já está ser escrita a não sei quantas mãos, eu não resisti e dei o meu 1º contributo (seguindo a ideia do Imso da estória colectiva).

    Este 1º(e último se quiserem) contributo tanto pode ser continuação (episódio da Margarita) como história paralela ou cruzada (mas quem é o OldSpiece? Onde está Elora?…)🙂

  2. Elora Says:

    Por mim juntam-se as histórias! Mal posso esperar para saber onde estou!

  3. Afro Says:

    Estou a ser uma leitora assídua. Daqui a nada pego nos posts todos e no exemplo do Othelo e começa-se a “construir” (basicamente copy paste) o encadeamento das histórias. Depois deixa-se a cargo dos respectivos autores o finalizar de “limar arestas” para que tudo faça sentido. E fazemos um romance de ficção dos amigos do blog do Tagus! (e quem sabe…até publicar in-world) lol🙂
    É que no meio disto tudo tb já me perdi. Já nem sei quem são os bons e os maus da fita😛

  4. Margarita Says:

    Pois, eu nem me apercebi de que a história (qual delas?) era para ser escrita a quatro mãos… Mas quando o Exmo. sr. Fokas me meteu ao barulho, o nervo criativo saltou e eu tive que me meter ao barulho. Foi absolutamente irresistível. Aliás, na minha opinião e desde que continue a ter graça, são bem-vindas todas as mãos que saibam escrever, e todas as ideias que nos ajudem a desvendar os mistérios. Estarão Elora e Othelo unidos por um elo secreto? Ou separar-se-ão as histórias definitivamente, na encruzilhada em que se decide se o destino é para Norte ou para Sul? Quem é, na realidade, Lourenço, e conseguir-se-á salvar Teresa das suas mãos? Qual é o passado de K? Que segredo esconde Flor da Rosa? O homem-bomba terá realmente desaparecido numa explosão ou ainda está vivo? Onde está Othelo? E para onde terão levado Elora? O que esconde o microfilme? Meus caros, as respostas estão nas nossas mãos. Deitemo-las à obra, então.

  5. playingmargarita Says:

    Damn! Isto nem parece meu, mas não consigo mesmo alterar o comentário. Por isso, onde se lê “Mas quando o Exmo. sr. Fokas me meteu ao barulho, o nervo criativo saltou e eu tive que me meter ao barulho.”, leia-se Mas quando o Exmo. sr. Fokas me envolveu no assunto, o nervo criativo saltou e eu tive que me meter ao barulho.

  6. playingmargarita Says:

    Já agora, e para quem não reparou, a saga de Othelo continua na página do próprio (Crónicas do Othelo, ver link aqui ao lado).

  7. othelo Says:

    Isto está qui um caldo…
    Parecem contos à desgarrada.
    Se juntarmos as duas novelas, dá um livro maior que o do Sousa Tavares, lol…

  8. Afro Says:

    a este ritmo…não duvido😉

  9. June Jurack Says:

    Ora que bem! Isto promete!!!
    Mãos à obra mocinhos.


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