Prego a fundo

Havia nevoeiro lá fora, na noite de S. Silvestre. Mas no cantinho do Hotel Paris a noite ainda era uma criança quando o telemóvel tocou! A Philbin insistira em partir imediatamente, colocara a boquilha de madrepérola na mesa e dissera-me simplesmente: – Deixa-te de conversas moles… Fokas! O assunto agora é sério. Levanta-te e vai-me buscar o casaco!

A Philbin nem me deixara argumentar… Rostos sorridentes e tolos cirandavam à minha volta. Ao  lado do meu ouvido bom, soprava uma enorme língua de sogra de papel, cujos gritos agudos me enchiam de maus pressentimentos, como a imagem aflitiva da ressureição, entre as minhas pernas, impossível de conter…Parece muito estúpido não é? De vez em quando, explodiam “crakers” e gritinhos idiotas.  As salas enormes do Hotel Paris estavam pejadas de gente mas era a Elora quem estava no centro das minhas atenções, coisa que ela não queria por certo… Ou talvez por uma vez, talvez quisesse? Aliás como é que eu tinha vindo parar a esta estória? O que é que eu procurava aqui, no meio de crentes desesperados e de reformistas falhados que frequentavam o Hotel Paris? 

Levei o Moet et Chandon, para o Aston Martin da Margarita, não fosse a boca secar-me no meio de mais uma viagem incerta. – Temos que chegar ao Crato antes de amanhecer! Podes ir contando tudo o que sabes sobre a Elora, que talvez assim não adormeça…Pior emenda que o soneto…eu receava desembocar em terreno pantanoso. Bebi foi o resto da garrafa  sem dizer uma palavra sobre a Elora e desviei a conversa para assuntos menos escaldantes. Mas senti  que faltava neste momento à minha vida, esse género de artista que todos nós tornamos na SL. O medo e o champagne estavam a paralizar as minhas palavras.   Eu estava em apuros, na altura, tanto moralmente, como noutro qualquer sentido – para ser breve – era como se a minha vida desabasse, a qual de resto, estava em ruínas -, e na minha fragilidade, mostrava-me disponivel para todo o tipo de influências.  Estava sozinho ao lado de uma mulher que conduzia como uma louca,  cena que muitos que eu conheço nem ousariam pensar, muito menos desejar. De repente a imagem secundária que eu tinha deixado adormecer (mas é melhor deixar isso por agora) acordava subitamente com aromas de Channel 5 em plena estrada alentejana.

A Philbin parecia que estava a ler os meus pensamentos. De repente olhou-me com um ar super desagradável, parou o carro no meio da estrada.- Quem és tu?- perguntou: Não quero ouvir mais merdas durante esta viagem! Por instantes , examinou-me com um ar severo. – Deixa de olhar para mim como um parvo! Gostas de coisas difíceis? – perguntou a seguir. Depende da qualidade – disse-lhe, porque julguei que estava a dar-se ares. Foi uma conversa terrivelmente estúpida que me dispenso de contar. Só me lembro que recebi uma bofetada na cara enquanto ela me gritava que estava farta de homens que nem a porrra de um pneu sabiam mudar!

O dia já estava a nascer quando ela me deu um beijo de lado e sorriu…- Desculpa Fokas…obrigado por me teres ajudado a mudar o pneu. Sózinha não teria sido capaz… Virei-me para o lado e adormeci  finalmente sossegado. ( To be followed)

  

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One Response to “Prego a fundo”

  1. Othelo Ayres Says:

    Esta-me para aqui a palpitar que quando a margarita e o fokas chegarem à pousada de Flor da Rosa, no Crato, vão lá encontrar o Lourenço.
    É só um palpite…


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