Réveillon

Muito honestamente, gosto de alimentar o mito. Dá-me gozo apreciar as histórias que são inventadas sobre mim, os tais factos que fazem de mim o que sou. A Philbin.
Estranhamente, dei por mim a confidenciar ao Fokas a história da minha vida, sentados a uma mesa recatada do Hôtel de Paris, com foie gras a fazer as vezes do caviar e champagne no lugar da Stolichnaya, mas as marcações de última hora são mesmo assim e de nada adiantou mencionar o meu nome ou o do meu pai.
Por alturas do magret de canard já o Fokas sabia, por entre mal-sucedidas tentativas de sedução, que eu era filha ilegítima de um almirante e que tinha passado a minha infância e maior parte da adolescência entre marinheiros. De facto, a minha mãe, em desespero, tinha-me levado ao navio para que o meu pai cuidasse de mim, e ele ali me acolheu na impossibilidade de me levar para casa da mulher. Foi assim que aprendi não só a lidar com os homens, mas também a pô-los em sentido.
Cedo descobri que é muito fácil seduzir um homem: um cruzar de pernas, um movimento mais lânguido, um simples entreolhar fazem com que eles passem de gelado a mousse num único instante. E depois, este sinalinho era puramente irresistível. Mas aprendi também a usar os travões no momento certo, graças não só aos ensinamentos do meu pai mas também ao seu cargo no navio, evidentemente. Mas agora, estava a custar à allumeuse resistir aos encantos do Fokas, e preparava-me para partilhar com ele uma colherinha da minha mousse aux agrumes et vainille quando chegou o telegrama do Leão:

“DIRIJAM-SE IMEDIATAMENTE CRATO STOP LOURENÇO E MULHER AVISTADOS
POUSADA STOP SUSPEITA-SE TERESA STOP.”

Com tudo isto, nem houve tempo para o café nem para o fim da minha história. O meu prometedor réveillon ia ser passado ao volante do Aston Martin, a caminho do Alentejo. Mas o importante mesmo era resgatar a Teresa e o Othelo.  Haveria muitos mais anos para réveillons.

(continua)

Posted in SL. 2 Comments »

2 Responses to “Réveillon”

  1. Elora Says:

    Yes!!!! Lindo! Já não sei separar as histórias, mas tou a adorar!

  2. Othelo Ayres Says:

    Isto com um jeitinho ainda se juntam as histórias.
    No entanto devo alertar que, quer a Teresa, quer o Othelo, não se encontram no Alentejo.
    Por isso, dá lá a volta aos cavalinhos do Aston Martin e faz-te à estrada para Norte.
    Prometo que a minha próxima história se passa lá. Por sinal até conheço a zona do Crato.


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