O martirio

O cenário…, Lisboa, século XXI…

Estamos a poucos dias de Dezembro…, o nosso artistinha, um metrosexual nortenho de visita de trabalho à capital do império.

Como todo o metrosexual que se preza, o nosso artistinha chegou a St.ª Apolónia todo artilhado com gadjets  de toda a ordem para não perder pitada do mundo e do trabalho, mas principalmente para o manter ligado à sua segunda vida.

Sim, o nosso herói não tinha suficientes problemas e ralações com a vida real tinha de arranjar uma vida virtual… masoquista? Não, afinal ele tinha uma deusa graças a essa nova vida, e mais do que isso, podia ele próprio ser um deus, mas isso são outras histórias…

O nosso herói chaga ao quarto do hotel. O hotel não é muito requintado, afinal o patrão, forreta, não quer gastar muito dinheiro com esta viagem de negócios. Por isso mesmo o nosso artistinha viaja sozinho, como sempre.

Mas como dizia, o hotel não era um de cinco estrelas, mas dava para dormir de dia, já que de noite era impossível.

Essa impossibilidade advinha de dois motivos. O primeiro derivava da localização do hotel e do quarto atribuído ao nosso artistinha e o segundo advinha do seu vicio, a sua segunda vida.

Quanto ao primeiro motivo, nada havia a fazer, deram-lhe um quarto mesmo em frente a um bordel e o corrupio de homens a entrar e a sair, o barulho dos gemidos de prazer que escapavam das janelas entreabertas penetravam-lhe no ouvido de forma insuportável. Se ainda ao menos eu estivesse com a minha deusa, hummmmm… pensava o nosso herói.

Mas lembrou-se, que podia estar com ela, embora de forma virtual, como sempre o fizera. Afinal em toso esse tempo em que conversavam e partilhavam juntos as sua histórias do dia à dia nunca se haviam conhecido pessoalmente.

Mas, voltando ao assunto, tirou o seu laptop da mala e colocou-o sobre a mesita em frente à sua cama e ligou-o.

Tinha solicitado no check-in do hotel uma ligação de rede para aceder à net. O recepcionista disse-lhe que estivesse descansado, eles tinham netcabo, do melhor, dizia ele…

Descansado o nosso homem lá ligou o computador à tomada de rede e abriu a porta para a sua segunda vida…

Entretanto do outro lado da rua vinham os gemidos de prazer que o enlouqueciam…

E pensava ele…, se ao menos tivesse a minha deusa comigo…

Mas tava quase.

O programa arrancou sem problemas, começou a vislumbrar o novo mundo que se lhe abria de par em par. Verificou as companhias que estavam online e… lá estava ela, a sua deusa.

Correu com sofreguidão com os dedos para o teclado, e começou a escrever…

            Boas, minha deu…;

 A net caiu.

 

– Bolas, deixa-me tentar…

Novamente o programa se reinicia…

            Deu…

Agora nem deu para nada… tinha crashado outra vez.

 

– Ai o car…, querem ver que esta m… não entra.

Zangado abre a porta do quarto e desce à recepção…

– Ohhh chefe, então esta cena da net funciona a broa?, perguntou com ar zangado ao recepcionista.

O rapaz atrapalhado nem sabia o que dizer.

– Er…, não sei, deixe-me ver…

 

– Bê lá senão bamos ter problemas…

Até te parto todo…, disse ele entre dentes.

 

Mas mal sabia ele da noticia arrasadora que o esperava.

– A net tá em baixo durante esta semana por causa dos trabalhos na rua, desculpe.

– O melhor que lhe posso fazer é devolver-lhe o dinheiro.

 

A noticia apanhou-o como se um raio lhe caísse na cabeça. O cabelo ficou em pé, as mãos trémulas e, do canto do olho, caiu uma lágrima até ao queixo.

Desolado, regressou ao quarto e enterrou a cabeça no travesseiro.

Ia estar este tempo todo sem falar com a sua deusa…

Que martírio.

 

Em homenagem ao Pedro – Aguenta rapaz tá quase.

 

Posted in SL. 7 Comments »

7 Responses to “O martirio”

  1. portugaldecosta Says:

    Epa Othelo…
    O teu artigo…
    Da para rir e meditar!
    E no fim sofrer com o artista!
    Absolutamente GENIAL!
    PARABENS!

    Isto tudo por causa dumas linhas que trocamos ainda ha pouco – entretanto cai – na SL?
    Bem…
    Se conversarmos muito…
    Ainda sairao os SLusiadas!
    :d

    Um abraco!

  2. Afro Says:

    Que posso eu responder?
    “Sweet dreams”?

  3. Summer Wardhani Says:

    Aiiiii ! Fiquei fããã ! E quero mais histórias, Othelo, muuuitas mais !😀

  4. Afro Says:

    Olha que começo a ver mesmo que ainda acabamos a escrever um livro😉 e gostei do nome “SLusíadas” até posia ser a epopeia dos amigos do Tagus… (tou pr aki a rebentar a rir no meio do trabalho, só por reler este post)

    ps. Tou TÃO orgulhosa de ter arranjando este “cantinho” para nós… sabia lá eu que tinha tantos amigos poetas e escritores???😀

  5. portugaldecosta Says:

    Epa, o Othelo, mesmo umas horas mais tarde, ainda rio a ler o que escreveste!

  6. portugaldecosta Says:

    Ser que o emocícone é :D?

  7. pedrofpetrov Says:

    epá quase que chorei de tanto rir se não fosse dedicado a mim a histórinha, obrigado othelo😉


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